domingo, 17 de janeiro de 2021

Canto VIII- O poder corruptor do vil metal

 96

Nas naus estar se deixa, vagaroso,
Até ver o que o tempo lhe descobre;
Que não se fia já do cobiçoso
Regedor, corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.
97
A Polidoro mata o Rei Treício,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortíssimo edifício,
Com a filha de Acriso a chuva d' ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro vício
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quási afogada em pago morre.

98
Este rende munidas fortalezas;
Faz trédoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências.
99
Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude!



Os Lusíadas: VIII, 96-99
         Vasco da Gama permanece nas naus e decide não desembarcar, visto que já não confia no ambicioso Catual, pois já o traíra, era muito ambicioso («cobiçoso»), corrupto («corrompido») e «pouco nobre». Por outro lado, Gama espera vir a descobrir a verdade com o tempo, daí também a sua decisão.
         Ora, esta referência ao sucedido a Vasco da Gama é o exemplo que serve de ponto de partida para a reflexão do poeta, que adverte, a partir do verso 5 da estância 96, para o efeito corruptor do dinheiro, que tanto sujeita os ricos como os pobres.

         Na estância 97, o poeta apresenta três casos através dos quais pretende provar a sua tese enunciada na estância anterior, isto é, que exemplificam o poder negativo dos bens materiais – dinheiro e ouro ‑, que levam à adoção de atitudes inesperadas.
         O primeiro exemplo refere-se ao rei da Trácia, que assassinou Polidoro, filho de Príamo, rei de Troia, com o único fito de lhe roubar o ouro. De facto, para o salvar, quando a cidade estava prestes a cair em poder dos Gregos, o rei enviou-o com ouro ao rei da Trácia que, todavia, se apoderou do ouro e o assassinou.

         O segundo caso refere-se a Dánae, filha de Acrísio, rei de Argos (Grécia), que foi encerrada numa torre para que não procriasse e, deste modo, fosse anulada uma profecia de um oráculo que anunciou a morte do soberano às mãos de um neto. Porém, Júpiter metamorfoseou-se em chuva de ouro, introduziu-se na torre e engravidou-a. Desse ato nasceu Perseu, que, concretizando a profecia, assassinou o avô.

         O último exemplo alude a Tarpeia, uma jovem romana que, na esperança de obter anéis de ouro dos Sabinos que sitiavam Roma, lhes abriu as portas da cidade. No entanto, os inimigos não a pouparam, esmagando-a sob as jóias e os escudos, tendo assim ficado soterrada.

         Nas estâncias 98 e 99, o poeta prossegue a enumeração dos efeitos negativos do dinheiro:
a. corrompe o pobre e o rico (estância 96);
b. leva ao assassínio (exemplo do rei da Trácia);
c. conduz à traição (est. 98, v. 1): os soldados rendem-se quando as suas fortalezas ainda se encontram abastecidas;
d. conduz à traição e à falsidade entre os amigos;
e. transforma o mais nobre em vilão (est. 98, vv. 3 a 6): a ambição material pode levar nobres, capitães ou virgens a renderem-se ao seu poder, mesmo tendo consciência de que a sua honra ficará manchada;
f. corrompe as ciências, os juízes e as consciências, levando-as a agir contra os seus princípios morais e culturais (est. 98, vv. 7-8);
g. distorce / perverte a interpretação dos textos (est. 99, vv. 1-2);
h. manipula as leis e a justiça, que se aplicam arbitrariamente (est. 99, v. 2);
i. fomenta o perjúrio (est. 99, v. 3);
j. fomenta a tirania nos reis (est. 99, v. 4);
k. corrompe os membros do clero, ainda que sob uma capa de virtude.

         Em síntese, os vícios provocados pela ambição são os seguintes:
i. a traição (“Faz tredores e falsos os amigos”);
ii. a corrupção (“Este corrompe virginais purezas”);
iii. a arbitrariedade (“Este interpreta mais que subtilmente / Os textos…”);
iv. a mentira / o perjúrio (“Este causa os perjúrios entre a gente”);
v. a tirania (“E mil vezes [hipérbole] tiranos torna os Reis”).



terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Critérios apresentação oral

 A- Dicção, Tom de Voz e Ritmo

B- Correção linguística

C- Fluência Discursiva

D- Desenvolvimento Temático

E- Interação com o Auditório

F- Suportes de Comunicação

G-Criatividade

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Elaboração de uma cantiga de Amigo

 Desafio:

Vais escrever uma cantiga de amigo, tendo por base uma paralelística perfeita.

Escolhe um dos seguintes refrães, conforme o tom mais alegre ou mais triste que queiras imprimir à tua cantiga.     

  •   Refrão 1- Lá me tarda meu amigo    ( podes escolher os dois versos ou só um)                 
  •                    E vivo coitada!


    Refrão 2- Leda e louçana. (Alegre e formosa)


Para te inspirares, lê os trabalhos dos teus colegas mais velhos que se encontram na etiqueta poesia trovadoresca e trabalhos dos alunos.


Boa Inspiração e Bom Trabalho!

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Leitura de Imagem


                          Exemplo de um texto de Leitura de Imagem

     A imagem presente na página 34 do manual de Português é uma iluminura do séc. XIV, pertencente ao Codex Manesse.

     Em primeiro plano, podemos observar três personagens, muito provavelmente, e tendo em conta a riqueza do seu vestuário, um nobre, uma dama e um trovador ou jogral. Este último tem nas mãos um saltério que toca com agrado. Enquanto o faz, o nobre eleva uma taça que oferta à dama, mulher a quem decerto pretende agradar e que se pode considerar a sua amada, a qual eleva as mãos para receber a oferenda do seu senhor.

     Em fundo, o iluminista desenhou rosas, as quais constituem uma espécie de tapete ou tapeçaria imaginária envolvendo os amantes. Elas podem representar, através da sua cor vermelha, a paixão que os une e, ao mesmo tempo, o símbolo da sua canção de amor cantada pelo jogral. Aliás, o vermelho é a cor predominante desta iluminura, o qual sugere também a alegria e a vitalidade que estão presentes no amor expresso por este par amoroso. Assim, a imagem sugere um ambiente festivo, mas ao mesmo tempo recheado de uma grande tranquilidade, que se pode inferir dos gestos suaves e dos olhares calmos dos apaixonados.

     Tendo em conta que estamos perante uma iluminura medieval, esta transporta-nos à realidade da poesia trovadoresca, onde o nosso imaginário se detém na diversidade das relações amorosas que a preenchem, na musicalidade que encerra, pois o poema e o som que o acompanha formam a cantiga de amigo composta pelo trovador, tocada e cantada pelo jogral ou segrel, bailada pela jogralesa ou bailarina.

     Em conclusão, esta iluminura evoca uma bela cantiga medieval, na qual, ao som doce do saltério, os dois amantes expressam alegre e tranquilamente o amor que os une.

domingo, 1 de novembro de 2020

Terminologia da lírica trovadoresca

 Cantiga de refrão – cantiga com estribilho.


Cantiga de refrão paralelística – cantiga cujo princípio estruturante é a repetição de versos numa sequência determinada (com refrão invariável). No paralelismo perfeito, com leixa-pren (deixa-toma), as estrofes são constituídas por dísticos que se repetem uma vez com variações mínimas, sendo o último verso de cada par de estrofes retomado no par de estrofes seguinte (num esquema de versos cuja versão mais simples se poderá descrever da seguinte forma: a, b, a’, b’, b, c, b’, c’, c, d, c’, d’, etc.).


Cantiga de mestria – cantiga sem refrão.


Cobras – estrofes ou coplas.


Finda – remate de uma cantiga, constituído por um, dois ou três versos finais (em casos raros, quatro). As cantigas podem ainda ter duas ou mais findas.


Cobras singulares – estrofes com séries de rimas diferentes (embora com o mesmo esquema rimático).


Cobras uníssonas – estrofes com uma única série de rimas, que se repetem em todas as estrofes (ou seja, além do esquema rimático, as terminações vocálicas dos versos são as mesmas em todas as estrofes).


Dobre – processo pelo qual se repetem palavras na mesma estrofe, em pontos que são fixos em todas as estrofes (ou seja, exemplificando: se na 1ª estrofe se repete a mesma palavra em dois pontos, nas estrofes seguintes deverá repetir-se uma outra palavra na mesma posição).

Mozdobre – processo semelhante ao dobre, mas com variação na flexão da palavra (exemplo: amar/amei).


Palavra perduda – verso de uma estrofe que não rima com nenhum outro (mas podendo ou não rimar com os versos correspondentes das estrofes seguintes).

terça-feira, 20 de outubro de 2020

quarta-feira, 14 de outubro de 2020