domingo, 17 de janeiro de 2021

Mitificação do Herói



*        Em Camões é mais forte o sentido viril, de ímpeto de realizar.

*     Camões, que vê o Império ainda vivo, exalta os heróis para a ação. 



*        Os heróis de Camões guiam-se pela bravura, pela missão de fé, pelo risco e pela aventura. São de carne viva. 

*        Camões exorta um D. Sebastião ainda vivo, ciente que está de um Império que embora em perigo pode ainda sobreviver e renovar-se.

*       Os Lusíadas são a exortação pura, do D. Sebastião presente, da esperança na renovação do Império decadente.

*        O Sebastião de Camões é viril e aventureiro, à moda das histórias de cavalaria da época.



Os Lusíadas

 A origem da palavra Lusíadas – Conta a lenda que Luso, filho de Baco, deus do vinho, fundou,

no extremo ocidental da Península Ibérica, um reino, ao qual deu um nome derivado do seu:
Lusitânia.
Na realidade, quando os Romanos se estabeleceram na Península Ibérica, por uma questão
administrativa, dividiram-na em três províncias, conservando o nome Lusitânia para toda a
região compreendida a sul do Rio Douro.
No século XVI, os escritores nacionais começaram a usar a palavra Lusitanos como sinónimo de
Portugueses, o que foi aproveitado por Camões.
Foi com base nisso que o poeta criou uma palavra nova que iria dar nome à sua obra épica: Os
Lusíadas, ou seja, o Povo de Luso – os Portugueses.

A Proposição aponta para os quatro planos do poema:
 1. O Plano da Viagem - celebração de uma viagem:
"...da Ocidental praia lusitana / Por mares nunca de antes navegados / Passaram além da
Tapobrana...";
 2. O Plano da História - vai contar-se a história de um povo:
"...o peito ilustre lusitano..."."...as memórias gloriosas / Daqueles Reis que foram dilatando
/ A Fé, o império e as terras viciosas / De África e de Ásia...";
3. O Plano dos Deuses (ou do Maravilhoso) - ao qual os Portugueses se equiparam:
"... esforçados / Mais do que prometia a força humana..."."A quem Neptuno e Marte
obedeceram...";
 4. O Plano do Poeta - em que a voz do poeta se ergue, na primeira pessoa:
"...Cantando espalharei por toda a parte. / Se a tanto me ajudar o engenho e
arte..."."...Que eu canto o peito ilustre lusitano...".



Invocação (C. I, 4-5)
4
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.

5
Dai-me ũa fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,

Se tão sublime preço cabe em verso.

Invocar significa apelar, pedir, suplicar.
Na Invocação, Camões dirige-se às Tágides, as ninfas do Tejo, pedindo-lhes que o ajudem a cantar os feitos dos portugueses de uma forma sublime:

“Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,”
Tratando-se de um pedido, a Invocação assume a forma de discurso persuasivo, onde predomina a função apelativa da linguagem e as marcas características desse tipo de discurso – o vocativo e os verbos no modo imperativo - determinam a estrutura do texto:

E vós, Tágides minhas, (...)
Dai-me (...)
Dai-me (...)
Dai-me (...)


O poeta pede às Tágides o estilo elevado que a epopeia e a grandiosidade do assunto requerem; o " som alto e sublimado ", exigido pelo " novo engenho ardente " que as ninfas colocaram nele. Como poeta experiente que é, sabe que a tarefa a que agora se propôs exige um estilo e uma linguagem de grau superior, por isso estabelece ao longo das duas estâncias um confronto entre a poesia lírica, há muito por ele cultivada, e a poesia épica, a que agora se abalança.

POESIA LÍRICA
POESIA ÉPICA
verso humilde
agreste avena
frauta ruda

novo engenho ardente
som alto e sublimado
estilo grandíloco e corrente
fúria grande e sonorosa
tuba canora e belicosa

Dedicatória

A dedicatória é uma parte facultativa da estrutura da epopeia. Camões inclui-a n’Os 
Lusíadas ao dedicar a sua obra ao rei D. Sebastião.
Nessa altura, D. Sebastião era ainda muito jovem e por isso era visto como a esperança
da pátria portuguesa na continuação da difusão da fé e do império.
D. Sebastião, rei de Portugal de 1568 a 1578, foi o penúltimo rei antes do domínio
espanhol (1580-1640). O seu prematuro desaparecimento numa manhã de nevoeiro na batalha
de Alcácer Quibir deu origem ao mito sebastianista, um sentimento muito português, que nasceu
de uma lenda e que tem povoado o imaginário coletivo do nosso povo, ao longo dos séculos.

 Para além do elogio ao rei, Camões pretende convencê-lo a aceitar o seu canto, por isso
recorre a uma linguagem argumentativa, sendo a função de linguagem predominante a apelativa.
O poeta recorre a numerosos vocativos, apóstrofes e ao uso frequente do modo imperativo. Há
quem considere que o discurso da Dedicatória segue a estrutura própria do género oratório.
O poeta chama constantemente a atenção do seu destinatário, D. Sebastião, para o que o poema vai celebrar.

Os Cantos n'Os Lusíadas

 Os Lusíadas (cliquem aqui e tenham acesso à obra) Lusíadas anotados


CANTO I 

1 - 3 (Proposição): Camões propõe-se a cantar os feitos dos Portugueses.
4 -5 (Invocação): O poeta invoca as Tágides (ninfas do Tejo).
6 - 18 (Dedicatória): O poema é dedicado a D. Sebastião.
19 (Narração): A Armada no Oceano Índico.
20 - 41: Os Deuses discutem no Olimpo. Júpiter e Vénus apoiam os Portugueses, e Baco opõe-se. Marte apoia Vénus.
42 - 99: A Armada em Moçambique. Vasco da Gama recebe o regedor e este último, incitado por Baco, ataca os Portugueses, mas é vencido. Mostra-se arrependido e oferece um falso piloto ao Gama.
100 - 102: O falso piloto dirige as naus para Quiloa, mas Vénus afasta os Portugueses do perigo de uma emboscada.
103 - 104: Chegada a Mombaça.
105 - 106: Considerações sobre a insegurança e as falsidades da vida. 

CANTO II 

1 - 28: O rei de Mombaça, mandado por Baco, tenta destruir a Armada Portuguesa atraindo-a ao porto. Vénus pede ajuda às Nereidas e estas afastam as naus. O falso piloto e os mouros julgam ter sido descobertos e fogem.
29 - 32: Vasco da Gama apercebe-se da cilada e pede a deus que o ajude a chegar à Índia.
33 - 63: Vénus pede a Júpiter que ajude os Portugueses. Júpiter concorda e profetiza-lhes sucesso. Mercúrio aparece em sonhos ao Gama e diz-lhe para seguir viagem.
64 - 71: Partida de Mombaça. Os Portugueses capturam um navio e os mouros levam-nos a Melinde.
72 - 91: Recepção festiva em Melinde.
92 - 113: O rei de Melinde visita a Armada e pede ao Gama que lhe conte a história de Portugal.

CANTO III 

1 - 2: Invocação de Camões a Calíope.
3 - 5: O Gama resume ao rei de Melinde o que lhe vai contar: terras, gentes e feitos de armas.
6 - 21: Situação geográfica da Europa e de Portugal
22 - 98: Viriato, Conde D. Henrique, reis de Portugal (de D. Afonso Henriques a D. Dinis), Egas Moniz, guerras da Reconquista, Batalha de Ourique.
99 - 135: D. Afonso VI, Batalha do Salado, episódios Líricos de Inês e da formosíssima Maria.
136 - 143: Reinados de D. Pedro e D. Fernando.

CANTO IV 

1 - 50: Mestre de Avis como rei de Portugal, discurso de Nun'Álvares, Batalha de Aljubarrota, conquista de Ceuta.
51 - 65: Reinados de D. Duarte, D. Afonso V e D. João II.
66 - 93: Reinado de D. Manuel. Sonho do rei em que aparecem os rios Ganges e Indo a profetizar o sucesso dos Portugueses na Índia. A Armada parte de Belém rumo ao Oriente.
94 - 104: O Velho do Restelo.

CANTO V

1 - 36: O Gama conta ao rei de Melinde a viagem até ao cabo das tormentas. Partida para o Equador. Fogo de Santelmo. A tromba Marítima. Fernão Veloso na Baía de Santa Helena.
37 - 60: O gigante Adamastor.
61 - 91: O Gama acaba o relato da viagem até Melinde. O escorbuto. Elogio à coragem dos Portugueses.
92 - 100: Desânimo do poeta face ao desprezo dos Portugueses pelas Letras, e em especial pela poesia. 

CANTO VI 

1 - 6: O povo de Melinde festeja os Portugueses. Partida das naus para os mares da Índia.
7 - 37: Baco fala com Neptuno. Concílio dos Deuses Marinhos. Discurso de Baco. Éolo é incitado a soltar os ventos para impedir a viagem dos Portugueses.
38 - 69: A bordo, os Portugueses contam histórias para passar o tempo. Fernão Veloso conta o episódio dos Doze de Inglaterra.
70 - 84: A tempestade.
85 - 91: Vénus e as ninfas abrandam os ventos.
92 - 94: As naus chegam a Calecute. O Gama agradece de novo a Deus.
95 - 99: Camões medita sobre o valor da glória. 

CANTO VII 

1 - 14: A Armada está na barra de Calecute. Camões elogia o espírito aventureiro dos Portugueses, comparando-os com outros povos que nada fazem. 
15 - 22: Entrada em Calecute. Descrição da Índia.
23 - 27: Contacto com o povo desconhecido.
28 - 41: Monçaide descreve o Malabar.
42 - 56: O Gama desembarca e o Catual leva os Portugueses até junto do Samorim.
57 - 66: O Gama visita o Samorim. Acolhimento dos Portugueses.
66 - 77: Paulo da Gama recebe o catual a bordo da Armada.
78 - 87: Camões faz nova invocação às Ninfas do Tejo e do Mondego, e queixa-se da sua infelicidade.

CANTO VIII 

1 - 43: Paulo da Gama descreve ao Catual as figuras das bandeiras das naus.
44 - 56: O Catual regressa a terra. Baco intervém de novo, pondo os indianos contra os Portugueses.
57 - 78: O Gama pede para ser recebido pelo Samorim. Este acredita no discurso do capitão e deixa que regresse à sua nau.
79 - 95: O Catual tenta deter Vasco da Gama em terra, mas como tem medo do Samorim, liberta-o a troco de mercadorias. O capitão regressa à nau e ficam dois feitores em terra.
96 - 99: Reflexões do poeta sobre o poder do ouro. 

CANTO IX 

1 - 17: Em Calecute espera-se uma armada Muçulmana para destruir a Portuguesa. Monçaide avisa o Gama, que levanta âncora, aprisionando os mercadores indianos como castigo.Os mercadores são trocados pelos feitores, e a Armada volta a Portugal.
18 - 50: Vénus decide recompensar os Portugueses.
51 - 92: Ilha dos Amores. Descrição e acolhimento das Ninfas aos Portugueses. Tétis recebe o Gama no palácio.
93 - 95: Exortação de Camões aos que sonham com a imortalidade. 


CANTO X 

1 - 143: Ilha dos Amores. Profecia dos feitos dos Portugueses no Oriente feita por uma Ninfa. Invocação a Calíope. A Ninfa continua as profecias. Tétis indica ao Gama os locais onde os Portugueses serão célebres. Os marinheiros despedem-se e partem.
144: Chegada a Portugal.
145 - 156: O poeta lamenta-se e promete a D. Sebastião cantar as futuras glórias e conclui assim a sua dedicatória, encerrando com ela a obra.

Síntese

 Plano do Poeta


Considerações e opiniões do autor, expressões nomeadamente no inicio e no fim dos cantos.

Destacam-se os momentos em que o poeta:

Refere aquilo que o homem tem de enfrentar: “os grandes e gravíssimos perigos”, a tormenta e o dano no mar, a guerra e o engano em terra (Canto I, est. 105-106);

Põe em destaque a importância das letras e lamenta que os portugueses nem sempre saibam aliar a força e a coragem ao saber e à eloquência (Canto V, est. 92-100);

Realça o valor das honras e da glória alcançadas por mérito (Canto VI, est. 95-96);

Faz a apologia da expansão territorial por espalhar a fé cristã. Critica os povos que não seguem o exemplo do povo português que, com atrevimento, chegou a todos os cantos do mundo (Canto VII, est. 2-14);

Lamenta a importância atribuída ao dinheiro, fonte de corrupções e de traições (Canto VIII, est. 96-99);

Explica o significado da Ilha dos Amores (Canto IX, est. 89-92);

Dirige-se a todos aqueles que pretendem atingir a imortalidade, dizendo-lhes que a cobiça, a ambição e a tirania são honras que não dão verdadeiro valor ao homem (Canto IX, est. 93-95);

Confessa estar cansado de “cantar a gente surda e endurecida” que não reconhecia nem incentivava as suas qualidades artísticas que reafirma nos seus últimos 4 versos da estrofe 154 do Canto X, ao referir-se ao seu “honesto estudo”, à “longa experiência” e no “engenho”, “causas que raramente”. Reforça a apologia das letras (Canto V, est. 92-100);

Manifesta o seu patriotismo e exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português (Canto X, est. 145-156).

Canto VII- Espírito de Cruzada

 3

Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso não pesais;
Vós, que, à custa de vossas várias mortes,
A lei da vida eterna dilatais:
Assi do Céu deitadas são as sortes
Que vós, por muito poucos que sejais,
Muito façais na santa Cristandade.
Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

4
Vede'los Alemães, soberbo gado,
Que por tão largos campos se apacenta;
Do sucessor de Pedro rebelado,
Novo pastor e nova seita inventa;
Vede'lo em feias guerras ocupado,
Que inda co cego error se não contenta,
Não contra o superbíssimo Otomano,
Mas por sair do jugo soberano.
5
Vede'lo duro Inglês, que se nomeia
Rei da velha e santíssima Cidade,
Que o torpe Ismaelita senhoreia
(Quem viu honra tão longe da verdade?),
Entre as Boreais neves se recreia,
Nova maneira faz de Cristandade:
Pera os de Cristo tem a espada nua,
Não por tomar a terra que era sua.

6
Guarda-lhe, por entanto, um falso Rei
A cidade Hierosólima terreste,
Enquanto ele não guarda a santa Lei
Da cidade Hierosólima celeste.
Pois de ti, Galo indino, que direi?
Que o nome «Cristianíssimo» quiseste,
Não pera defendê-lo nem guardá-lo,
Mas pera ser contra ele e derribá-lo![...]

8
Pois que direi daqueles que em delícias,
Que o vil ócio no mundo traz consigo,
Gastam as vidas, logram as divícias,
Esquecidos do seu valor antigo?
Nascem da tirania inimicícias,
Que o povo forte tem, de si inimigo.
Contigo, Itália, falo, já sumersa
Em vícios mil, e de ti mesma adversa.[...]

13
Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,
Bradando vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceptos do Alcorão (duro tributo!).
Em castigar os feitos inumanos
Vos gloriai de peito forte e astuto,
E não queirais louvores arrogantes
De serdes contra os vossos mui possantes.

14
Mas, entanto que cegos e sedentos
Andais de vosso sangue, ó gente insana,
Não faltarão Cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa Lusitana:
De África tem marítimos assentos;
É na Ásia mais que todas soberana;
Na quarta parte nova os campos ara;
E, se mais mundo houvera, lá chegara.

Percorrido tão longo e difícil caminho, é momento para que, na chegada a Calecut (est. 3-7), o poeta faça novo louvor aos portugueses. Exalta então o seu espírito de cruzada, a incansável divulgação da fé, por África, Ásia, América, "E, se mais mundos houvera, lá chegara", assim inserindo a viagem à Índia na missão transcendente que assumiram, e que é marca da sua identidade nacional.

Por oposição, critica duramente as outras nações europeias - os "Alemães, soberbo gado", o "duro inglês, o "Galo indigno", os italianos que, "em delícias, / Que o vil ócio no mundo traz consigo, / Gastam as vidas" - por não seguirem o seu exemplo, no combate aos infiéis...

Reflexões do Poeta

 CANTO I


105
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho de vida nunca certo:
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!


106
No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?


O  Poeta reflete sobre a fragilidade e efemeridade da vida humana. 
Refere que o povo de Mombaça se finge  amigo dos portugueses para os traírem, mas são descobertos. 
Fala dos perigos e inseguranças, a ponto do ser humano não ter nenhum sítio no mundo onde se possa acolher e sentir seguro.
Apresenta a diferença entre o Homem, "bicho da terra tão pequeno" e as imensas forças da natureza.

Episódio da Ilha dos Amores

 Caráter simbólico do episódio “Ilha dos Amores”:


o mar é o caminho físico para a espiritualidade;
com Vasco da Gama temos o reconhecimento do herói e a Ilha dos Amores é esse reconhecimento;
na  Ilha  dos  Amores  dá­se  o  casamento  cósmico  entre  os marinheiros  e  as  ninfas  – é  a recompensa  e  a dignificação/mitificação do herói;
para  os  marinheiros  fazerem  amor  com  a  ninfas,  são  elevados  ao  plano  do  divino  e  as  ninfas  têm oportunidade de saborear o amor humano;
Tétis  revela  a  Vasco  da  Gama  a  Máquina  do  Mundo,  o  que  permite  a  mitificação  do  herói,  o  amor  e  o conhecimento. São estes últimos que permitem a elevação do ser como pessoa;
a Ilha existe porque os portugueses foram capazes de ultrapassar os seus medos e atingir o conhecimento ao passarem pelo Cabo das Tormentas;
revelação de que o único caminho para o futuro é o amor e o conhecimento (cf. Quinto Império)


Mitificação do herói:

os portugueses conseguiram conquistar o mar e vencer as forças divinas;
a vontade de “ir mais alto” e “mais longe”, a ousadia, a coragem, o sacrifício e o estudo permitiram ao povo português a superação de si próprio e “mais do que prometia a força humana” atingir o seu objetivo;
a  Ilha  dos  Amores  surge  como  a  recompensa  pela  superação  de  todos  os  obstáculos  e  o  alcance  do “horizonte”, existindo, desta forma, a divinização dos portugueses;
a viagem traduz­se na procura da verdade, na passagem do desconhecido para o conhecido, das trevas para a  luz,  a  capacidade  de  ultrapassar  o  medo  e  atingir  a  verdade,  sendo  exemplo  disso  o  episódio  do Adamastor;
a Máquina do Mundo surge como uma nova época do conhecimento, o alargamento de horizontes;
a suprema harmonia dá-se através da união dos homens com os deuses;

Canto VIII- O poder corruptor do vil metal

 96

Nas naus estar se deixa, vagaroso,
Até ver o que o tempo lhe descobre;
Que não se fia já do cobiçoso
Regedor, corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.
97
A Polidoro mata o Rei Treício,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortíssimo edifício,
Com a filha de Acriso a chuva d' ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro vício
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quási afogada em pago morre.

98
Este rende munidas fortalezas;
Faz trédoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências.
99
Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude!



Os Lusíadas: VIII, 96-99
         Vasco da Gama permanece nas naus e decide não desembarcar, visto que já não confia no ambicioso Catual, pois já o traíra, era muito ambicioso («cobiçoso»), corrupto («corrompido») e «pouco nobre». Por outro lado, Gama espera vir a descobrir a verdade com o tempo, daí também a sua decisão.
         Ora, esta referência ao sucedido a Vasco da Gama é o exemplo que serve de ponto de partida para a reflexão do poeta, que adverte, a partir do verso 5 da estância 96, para o efeito corruptor do dinheiro, que tanto sujeita os ricos como os pobres.

         Na estância 97, o poeta apresenta três casos através dos quais pretende provar a sua tese enunciada na estância anterior, isto é, que exemplificam o poder negativo dos bens materiais – dinheiro e ouro ‑, que levam à adoção de atitudes inesperadas.
         O primeiro exemplo refere-se ao rei da Trácia, que assassinou Polidoro, filho de Príamo, rei de Troia, com o único fito de lhe roubar o ouro. De facto, para o salvar, quando a cidade estava prestes a cair em poder dos Gregos, o rei enviou-o com ouro ao rei da Trácia que, todavia, se apoderou do ouro e o assassinou.

         O segundo caso refere-se a Dánae, filha de Acrísio, rei de Argos (Grécia), que foi encerrada numa torre para que não procriasse e, deste modo, fosse anulada uma profecia de um oráculo que anunciou a morte do soberano às mãos de um neto. Porém, Júpiter metamorfoseou-se em chuva de ouro, introduziu-se na torre e engravidou-a. Desse ato nasceu Perseu, que, concretizando a profecia, assassinou o avô.

         O último exemplo alude a Tarpeia, uma jovem romana que, na esperança de obter anéis de ouro dos Sabinos que sitiavam Roma, lhes abriu as portas da cidade. No entanto, os inimigos não a pouparam, esmagando-a sob as jóias e os escudos, tendo assim ficado soterrada.

         Nas estâncias 98 e 99, o poeta prossegue a enumeração dos efeitos negativos do dinheiro:
a. corrompe o pobre e o rico (estância 96);
b. leva ao assassínio (exemplo do rei da Trácia);
c. conduz à traição (est. 98, v. 1): os soldados rendem-se quando as suas fortalezas ainda se encontram abastecidas;
d. conduz à traição e à falsidade entre os amigos;
e. transforma o mais nobre em vilão (est. 98, vv. 3 a 6): a ambição material pode levar nobres, capitães ou virgens a renderem-se ao seu poder, mesmo tendo consciência de que a sua honra ficará manchada;
f. corrompe as ciências, os juízes e as consciências, levando-as a agir contra os seus princípios morais e culturais (est. 98, vv. 7-8);
g. distorce / perverte a interpretação dos textos (est. 99, vv. 1-2);
h. manipula as leis e a justiça, que se aplicam arbitrariamente (est. 99, v. 2);
i. fomenta o perjúrio (est. 99, v. 3);
j. fomenta a tirania nos reis (est. 99, v. 4);
k. corrompe os membros do clero, ainda que sob uma capa de virtude.

         Em síntese, os vícios provocados pela ambição são os seguintes:
i. a traição (“Faz tredores e falsos os amigos”);
ii. a corrupção (“Este corrompe virginais purezas”);
iii. a arbitrariedade (“Este interpreta mais que subtilmente / Os textos…”);
iv. a mentira / o perjúrio (“Este causa os perjúrios entre a gente”);
v. a tirania (“E mil vezes [hipérbole] tiranos torna os Reis”).



terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Critérios apresentação oral

 A- Dicção, Tom de Voz e Ritmo

B- Correção linguística

C- Fluência Discursiva

D- Desenvolvimento Temático

E- Interação com o Auditório

F- Suportes de Comunicação

G-Criatividade

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Elaboração de uma cantiga de Amigo

 Desafio:

Vais escrever uma cantiga de amigo, tendo por base uma paralelística perfeita.

Escolhe um dos seguintes refrães, conforme o tom mais alegre ou mais triste que queiras imprimir à tua cantiga.     

  •   Refrão 1- Lá me tarda meu amigo    ( podes escolher os dois versos ou só um)                 
  •                    E vivo coitada!


    Refrão 2- Leda e louçana. (Alegre e formosa)


Para te inspirares, lê os trabalhos dos teus colegas mais velhos que se encontram na etiqueta poesia trovadoresca e trabalhos dos alunos.


Boa Inspiração e Bom Trabalho!

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Leitura de Imagem


                          Exemplo de um texto de Leitura de Imagem

     A imagem presente na página 34 do manual de Português é uma iluminura do séc. XIV, pertencente ao Codex Manesse.

     Em primeiro plano, podemos observar três personagens, muito provavelmente, e tendo em conta a riqueza do seu vestuário, um nobre, uma dama e um trovador ou jogral. Este último tem nas mãos um saltério que toca com agrado. Enquanto o faz, o nobre eleva uma taça que oferta à dama, mulher a quem decerto pretende agradar e que se pode considerar a sua amada, a qual eleva as mãos para receber a oferenda do seu senhor.

     Em fundo, o iluminista desenhou rosas, as quais constituem uma espécie de tapete ou tapeçaria imaginária envolvendo os amantes. Elas podem representar, através da sua cor vermelha, a paixão que os une e, ao mesmo tempo, o símbolo da sua canção de amor cantada pelo jogral. Aliás, o vermelho é a cor predominante desta iluminura, o qual sugere também a alegria e a vitalidade que estão presentes no amor expresso por este par amoroso. Assim, a imagem sugere um ambiente festivo, mas ao mesmo tempo recheado de uma grande tranquilidade, que se pode inferir dos gestos suaves e dos olhares calmos dos apaixonados.

     Tendo em conta que estamos perante uma iluminura medieval, esta transporta-nos à realidade da poesia trovadoresca, onde o nosso imaginário se detém na diversidade das relações amorosas que a preenchem, na musicalidade que encerra, pois o poema e o som que o acompanha formam a cantiga de amigo composta pelo trovador, tocada e cantada pelo jogral ou segrel, bailada pela jogralesa ou bailarina.

     Em conclusão, esta iluminura evoca uma bela cantiga medieval, na qual, ao som doce do saltério, os dois amantes expressam alegre e tranquilamente o amor que os une.

domingo, 1 de novembro de 2020

Terminologia da lírica trovadoresca

 Cantiga de refrão – cantiga com estribilho.


Cantiga de refrão paralelística – cantiga cujo princípio estruturante é a repetição de versos numa sequência determinada (com refrão invariável). No paralelismo perfeito, com leixa-pren (deixa-toma), as estrofes são constituídas por dísticos que se repetem uma vez com variações mínimas, sendo o último verso de cada par de estrofes retomado no par de estrofes seguinte (num esquema de versos cuja versão mais simples se poderá descrever da seguinte forma: a, b, a’, b’, b, c, b’, c’, c, d, c’, d’, etc.).


Cantiga de mestria – cantiga sem refrão.


Cobras – estrofes ou coplas.


Finda – remate de uma cantiga, constituído por um, dois ou três versos finais (em casos raros, quatro). As cantigas podem ainda ter duas ou mais findas.


Cobras singulares – estrofes com séries de rimas diferentes (embora com o mesmo esquema rimático).


Cobras uníssonas – estrofes com uma única série de rimas, que se repetem em todas as estrofes (ou seja, além do esquema rimático, as terminações vocálicas dos versos são as mesmas em todas as estrofes).


Dobre – processo pelo qual se repetem palavras na mesma estrofe, em pontos que são fixos em todas as estrofes (ou seja, exemplificando: se na 1ª estrofe se repete a mesma palavra em dois pontos, nas estrofes seguintes deverá repetir-se uma outra palavra na mesma posição).

Mozdobre – processo semelhante ao dobre, mas com variação na flexão da palavra (exemplo: amar/amei).


Palavra perduda – verso de uma estrofe que não rima com nenhum outro (mas podendo ou não rimar com os versos correspondentes das estrofes seguintes).

terça-feira, 20 de outubro de 2020

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

segunda-feira, 27 de maio de 2019

GRAMÁTICA

ORAÇÕES
1.  Vou passear, contanto que não faça frio na rua.
2.  Sempre que estudo, fico a saber mais.
3.  Gosto tanto deste filme, que já o vi mais de vinte vezes.
4. Não obstante estar frio, vou sair.
5. Leva o casaco que faz frio.
6. A cidade que visitei nas férias situa-se na Ásia.

FUNÇÕES SINTÁTICAS
1. O caderno azul é meu.
2. O meu cão anda doente.
3. O dicionário de Inglês deu-me muito jeito.
4. Estou aqui/Moro aqui/ Falei contigo, aqui.
5. Os nossos amigos adoram-nos.
6. A turma considerou o delegado muito competente.


SOLUÇÕES

ORAÇÕES

1. oração subordinada adverbial condicional.
2. oração subordinada adverbial temporal.
3. oração subordinada adverbial consecutiva
4. oração subordinada adverbial concessiva.
5. oração subordinada adverbial causal.
6. oração subordinada adjetiva relativa restritiva.

FUNÇÕES SINTÁTICAS

1. modificador restritivo.
2. predicativo do sujeito.
3. complemento do nome / complemento indireto /  complemento direto.
4. predicativo do sujeito / complemento oblíquo / modificador.
5. complemento direto.
6. predicativo do complemento direto.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Apresentações orais

Deixo aqui algumas sugestões para a escolha de versos da poesia de Camões.

1. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
2. Tanto de meu estado me acho incerto.
3. Amor é fogo que arde sem se ver.
4. Que me quereis, perpétuas saudades?
5. O tempo acaba o mês e a hora.
6. Verdes são os campos.
7. Quem diz que o Amor é falso ou enganoso.
8. De quantas graças tinha a Natureza.
9. Lembranças que lembrais meu bem passado.
10. Os bons vi sempre passar no Mundo graves tormentos

Deixo também sugestões de temas que podes relacionar com estes versos.

1. O ambiente; alterações climáticas; evolução tecnológica; mentalidade dos jovens de hoje...
2. Ser jovem no mundo de hoje; jovem hoje, adulto amanhã; que fazer com o meu futuro...
3. A descoberta do amor; o amor( ou a falta dele) no mundo atual; amor entre os jovens...
4. A minha infância; saudades do futuro; saudades de quem já partiu...
5. A passagem do tempo e o que ela traz de novo; a origem do universo; momentos da História; a minha estação do ano preferida; as férias...
6. O ambiente; sítios naturais de sonho onde quero ir; as minhas viagens...
7. Vale sempre a pena amar; o meu par ideal; personagens que mudaram o mundo...
8. Catástrofes naturais; Estamos a mudar a Natureza?; Sítios paradisíacos...
9. Recordações de momentos importantes da minha vida; recordações de pessoas importantes da minha vida...
10. Desigualdade social; histórias de injustiça...

domingo, 24 de fevereiro de 2019

sábado, 24 de novembro de 2018

Cantigas de amigo feitas pelos alunos
























Cantiga de Amigo                                    Trazei o meu amigo,
                                                                     Por quem eu sospiro.
                                                                            Morro d'amor!
Águas do rio Liz,
Trazei o meu amigo.
Morro d’amor!                                         Trazei o meu amado,
                                                                    Por quem  tenho esperado.
Águas do rio sagrado,                                                Morro d’amor!
Trazei o meu amado.
    Morro d’amor!


                                                                                                                                                                                                                                  Mariana Videira 10ºA






Águas do rio Liz
trazei o meu amigo,
aquele que partiu.
Morro de amor!

Águas do rio sagrado
trazei o meu amado,
aquele que me deixou deste lado.
Morro de amor!

Trazei o meu amigo,
aquele por quem suspiro
e de quem me agrado.
Morro de amor!

Trazei o meu amado,
aquele que me foi levado
para outro lado.
Morro de amor!

                                                                                                                                   Lara Santana 10ºA





Águas do rio Lis 
Trazei o meu amigo.        
Leda seja eu!

 Águas do rio sagrado 
Trazei o meu amado.        
Leda seja eu! 

Trazei o meu amigo
 para perto do meu peito.       
 Leda seja eu! 

Trazei o meu amado 
para perto da minha alma.      
  Leda seja eu!

 Para perto do meu peito
 trazei-me meu estimado.        
Leda seja eu!

 Para perto da minha alma
 trazei-me meu adorado.    
   Leda seja eu!

                                                                                                                            Ema Costa 10º A